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Junho/2004
REVISTA SUPER INTERESSANTE
O
SENTIDO MARGINAL
Apesar de indispensável, o olfato foi posto em segundo plano
pelo homem civilizado - até mesmo pela ciência, que só recentemente
começou a farejar pistas sobre a importância dos cheiros.
Por Marcos Nogueira
NEGÓCIO PERFUMADO
A perspectiva de criar fragrâncias que possam induzir comportamentos
nas pessoas é apenas mais uma frente aberta em um negócio que movimenta
dezenas de bilhões de dólares por ano: a indústria de aromas. Ela
produz cheiros para uma gama quase infinita de itens - de detergentes a
gomas de mascar, de cigarros a salgadinhos. (Vale dizer que 75% daquilo
que conhecemos como sabor é percebido pelo nariz: a língua só
identifica gostos básicos, como salgado e doce). Perfumes, é claro,
continuam sendo um filão importante desse ramo.
A idéia de
"roubar" perfumes da natureza surgiu do incômodo do homem com os
cheiros de seu próprio corpo e dos subprodutos das atividades humanas -
lixo, fezes, roupas impregnadas de suor. "Enquanto o fedor do mundo
pré-esgoto era um lembrete constante das necessidades mundanas do
homem, as fragrâncias representavam um poderoso elo com o esotérico.
Cheiros podiam seduzir amantes, curar os doentes e - o mais importante
- ligar o humano ao divino", afirma a escritora americana Gabrielle
Glasser.
Os antigos
egípcios acreditavam que todos os odores agradáveis eram derivados das
lágrimas e do suor de suas divindades. Já no século 12ª. a.C., eles
produziam perfumes com plantas que nasciam às margens do Nilo-lírios,
endro, mangerona. Os nobres do Egito tomavam banho todo dia, mas não
conheciam o sabonete e passavam o dia sob o sol saariano. Numa vã
tentativa de vencer o bodum, inventaram o primeiro arremedo de
desodorante: bolas de resina de pinheiro presas às axilas. Hebreus,
gregos e romanos também prezavam muito os aromas de incensos, cremes e
óleos perfumados, Mas, na alta Idade Média, a Igreja decretou que todas
essas coisas - vinculadas a rituais religiosos pagãos - eram obra do
diabo.
A oposição
foi sendo relaxada aos poucos, pois os clérigos perceberam que
incensários e defumadores eram indispensáveis para dissipar a
pestilência de capelas e catedrais. Mas o império da fedentina só
começou a cair de verdade no século 15, época em que Veneza, na Itália,
era um importante centro de comércio e convívio com os muçulmanos, que
se mantiveram limpinhos por todo esse tempo. A florentina Catarina de
Médici é considerada a responsável pelo florescimento da perfumaria na
França. Em 1533, ela casou-se com o rei Henrique II e levou da Itália
uma corte que incluía seu alquimista e perfumista particular. Catarina
teria escolhido Grasse, uma vila no litoral mediterrâneo, como local
ideal para que se plantassem suas flores e ervas perfumadas - a cidade
é até hoje uma importante referência na indústria de frangrancias.
Dois
séculos mais tarde, toda a nobreza da França tinha o perfume como um
item de sobrevivência. Ele era indispensável para disfarçar os odores
pútridos que emanavam de corpos que, não raro, haviam tomado dois ou
três banhos em toda a vida. Dos pioneiros de Grasse até meados do
século passado, os métodos de fabricação de perfumes permaneceram mais
ou menos os mesmos. Usavam-se artifícios químicos e físicos para se
extraírem odores já existentes na natureza: em flores, frutos,
madeiras, folhas, casca de frutas. A lista de matérias-primas incluía
coisas no mínimo surpreendentes, como vômito de baleia ou extrato de
castor. "Notas animálicas, associadas a secreções, dão calor e
sensualidade à fragrância", diz Mônica Rosseto, perfumista da Givaudan.
Muitos materiais eram difíceis de obter e, conseqüentemente, caros
demais para serem usados na produção em massa de aromas. Por isso, a
grande guinada da perfumaria no século 20 foi a reprodução sintética de
aromas. Sabe-se, por exemplo, da vanilina.
Para se
obter cheiro de baunilha, ninguém mais precisa das favas colhidas em
Madagascar: produz-se vanilina em laboratório. Qualquer indústria
química é capaz de sintetizar essas substâncias, mas a complexidade da
matéria-prima natural é difícil de ser reproduzida com perfeição. Esse
é um dos desafios atuais da perfumaria atual. "Flores liberam
substâncias diferentes ao longo do dia", afirma o engenheiro químico
Marco Carmini, diretor de tecnologia e inovação da Givaudan. Para que
essa distorção não ocorra e seja feito, digamos, um perfume de "rosas
às 10h30", Marco e sua equipe trabalham em uma técnica na qual as
emanações são recolhidas por cápsulas que capturam a fragrância em
diferentes horas, sem que a flor precise ser colhida.
Esses
aromas encapsulados são mais tarde analizados e sintetizados, sendo
possível se aproximar do cheiro verdadeiro de uma rosa. A clonagem de
cheiros pode ser assombrosa do ponto de vista tecnológico, mas é uma
prática até conservadora perto do que está por vir. Muitas fichas tem
sido apostadas nos efeitos que os odores podem ter sobre o
comportamento humano - seja para acalmar pessoas nervosas, seja para
induzi-las a comprar alguma coisa. O anatomista David Berliner,
ex-professor da Universidade de Utah, deixou a vida acadêmica para
fundar uma empresa que produz fragrâncias com feromônios. No Japão, há
empresas que borrifam aromas no sistema de ar-condicionado dos
escritórios - brisa de limão pela manhã, lufadas de manjericão à tarde
- para que seus funcionários trabalhem mais satisfeitos.
O exército
americano desenvolve as chamadas "bombas fedorentas", com substâncias
fedidas o suficiente para deixar qualquer inimigo sem ação. Se
realmente for possível controlar as emoções com cheiros fabricados, o
futuro poderá nos trazer o alívio de muitos males - e também medo
permanente de meter o nariz onde não somos chamados.
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