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Abril/2003
REVISTA PEGN Pequenas Empresas Grandes Negócios
Marketing
SOB O SIGNO DA EMOÇÃO
Para alavancar as vendas e driblar a concorrência, o varejo
procura, cada vez mais, aguçar os sentidos do consumidor
Por Kátia Simões
A psicóloga Beth Furtado, diretora de Desenvolvimento de Varejo da New
Way, empresa do grupo Talent, diz que, com a massificação dos produtos,
a redução progressiva das margens de lucro e o rápido domínio dos
processos tecnológicos, as lojas ficaram muito iguais. O varejo
percebeu na marra que, para conquistar a confiança do consumidor, era
preciso atrai-lo por outros caminhos, além da combinação preço,
qualidade, atendimento. O uso da emoção passou a ser uma alternativa
eficiente. "O objetivo é mexer com o cliente e, assim, transformar a
experiência de compra num momento único", afirma Beth.
As
primeiras iniciativas do gênero passaram a ser desenvolvidas na Europa
e nos Estados Unidos no fim dos anos 80, quando o ciclo dos yuppies
começou a perder força. Depois de um período de consumo exagerado, as
pessoas principiaram a valorizar mais o ser do que o ter. Comprar por
comprar não tinha mais sentido. A chamada geração Y, atualmente na
faixa dos 35 anos, buscava na compra uma experiência que não fosse mais
um ato mecânico.
Atentos à
nova necessidade, os lojistas começaram, então, a instalar bares dentro
de suas lojas e a adotar música ambiente. Mas, enquanto lá fora as
ações eram implantadas para fisgar o consumidor e ampliar as vendas,
por aqui não passavam de atitudes isoladas, que tendiam para o
entretenimento. Ainda hoje, as principais realizações não vão muito
além das áreas do marketing olfativo e auditivo. Mesmo assim já é um
bom começo.
Não basta
borrifar o local com perfumes consagrados. Cada aroma tem a sua
personalidade.
MEMÓRIA
VALIOSA - Segundo a psicóloga Sâmia Maluf, pós - graduada em marketing
e especializada em aromaterapia na França, uma combinação olfativa
afinada é capaz de atrair a atenção do cliente, pode aumentar o tráfego
na loja e a velocidade de visitação. Além disso, pode servir como uma
espécie de tranqüilizante natural, despertar a fome e até a libido. Uma
pesquisa comportamental feita na Alemanha concluiu que o uso de
fragrâncias personalizadas aumenta o tempo de permanência da pessoa no
ponto - de - venda em 15.9%, em média; a probabilidade de compra em
14.8%; e as vendas reais em 6%.
No Brasil,
os supermercados, dispostos a atrair a atenção dos consumidores para
áreas de pouco tráfego, foram os primeiros a adotar a aromatização em
meados dos anos 90. Na seqüência, vieram as feiras de negócios e, há
cerca de quatro anos, uma procura mais significativa por parte do
varejo e de promotores de eventos artísticos e culturais. A Rosa Chá,
grife de moda praia, por exemplo, impregnou a sala de desfile da última
Fashion Week, realizada em janeiro, com aroma de erva-doce, da Natura.
Nem mesmo o sambódromo escapou do cheiro de café fresquinho durante a
passagem da Gaviões da Fiel, no carnaval paulistano de 2004.
O aumento
da demanda ajudou a diminuir os custos do processo. Hoje é possível
encomendar uma fragrância personalizada a partir de 2.000 reais e
aromatizar um espaço de 50 metros quadrados com cerca de 500 reais. Os
especialistas advertem, porém, que não basta borrifar o local com
perfumes consagrados. Os aromas têm personalidade própria. Sua adoção
deve ser sutil e ligada ao perfil do cliente.
Lojas de
surfe, por exemplo, pedem essências que lembrem o mar, enquanto as que
vendem lingeries sofisticadas exigem aromas mais sensuais. Portanto,
escolher um aroma que se identifique com o negócio e desperte algum
tipo de sensação agradável no consumidor é um exercício que pode levar
meses; às vezes, anos. Sem contar que uma escolha errada pode
comprometer o futuro do empreendimento. "O repertório olfativo tem uma
permanência na memória das pessoas maior que o visual. A imagem fixa-se
por alguns meses. O cheiro, por anos. E, se apresentar algum
envolvimento emocional, pelo resto da vida" (leia o quadro "Todos os
sentidos"), afirma a psicóloga Sâmia.
A
associação de um aroma a uma cartela de cores bem trabalhada também
resulta em uma alquimia atraente, já que as cores têm influência direta
no estado de espírito do homem. Segundo a psicoterapeuta e consultora
de cromoterapia Maria Paula Tonini, o vermelho, o laranja e o amarelo
forte são cores quentes. Eles alegram o ambiente, estimulam o apetite e
o dinamismo quando usadas numa parede ou na decoração. Mas tem o poder
de sufocar quando adotados em todo o ambiente. Já os tons de azul,
verde, lilás e o índigo estimulam a criatividade e a tranqüilidade.
Marrom e bege, por sua vez, facilitam as negociações e aquecem as
vendas.
Os sócios
Élson Reys e José Roberto Giffoni, donos da Ducha, loja de artigos para
banho, localizada no bairro paulistano de Higienópolis, por exemplo,
inspiraram-se nas feiras livres, com sua informalidade, que permite ao
cliente cheirar e mexer em tudo que está ao alcance dos olhos."O
consumidor assimilou o espírito da loja, se sente à vontade, comenta
sobre o cheiro agradável e, em 90% dos casos, leva pelo menos um
sabonete", declara Reys.
O cheiro
fixa-se por anos. E, se apresentar envolvimento emocional, pelo resto
da vida.
TODOS OS
SENTIDOS
Para chamar a atenção do consumidor pode-se resgatar sons, cheiros e
formas típicas de períodos que se deseje retratar
* 1950-59*
Visual - Topete masculino; ato de fumar
Audição - Rock - 'n - roll
Olfato - Gumex; lança-perfume; naftalina; óleo de peroba; cera
Parquetina; pó de arroz; fragrâncias English Lavander e Seiva de
Alfazema; Leite de Rosas; talco Cashmere Bouque
Paladar - Aveia; cocada; broa de milho; Coca-Cola; Diamante Negro
* 1960-69*
Visual - Hippies; flower power (paz e amor)
Audição - Bossa Nova; pop music
Olfato - Água sanitária; lustra móveis Shell; cera de sapato Nugget;
talco Johnson's; sabonete Phebo; fragrâncias Fidji, Acqua di Selva e
Rastro
Paladar - Bis; Sonho de Valsa; Chicabon; goma de mascar Ping Pong;
Seven Up; guaraná Caçulinha; Grapette; hot-dog
*1970-79*
Visual - Psicodelismo; formas geométricas; cores fortes
Audição - Discoteca; rock de protesto
Olfato - Pinho Sol; fragrâncias Brût, Wild Musk, Charlie, Anais Anais,
Acqua Fresca, pinho Campos do Jordão, Opium
Paladar - Batata frita industrializada; Danone; Yakult; hambúrguer;
balas Soft
*1980-89*
Visual - Punk; yuppie
Audição - Discoteca; heavy metal
Olfato - Limpadores Amoníaco; fragrâncias Drakkar Noir, Azzaro, Paris,
Poisson, Giorgio
Paladar - Tang; Suflair; iogurtes flavorizados; McDonald's; Halls
*1990-99*
Visual - Clubber
Audição - Dance; tecno
Olfato - Poluição atmosférica; aromaterapia; fragrâncias CK One, Pólo,
Kenzo, Fahrenheit
Paladar
- Comida congelada; enlatados; bebidas importadas
*2000*
Visual - Tribos; tatuagens; piercings; toque retro
Audição - Pós-tecno; e-music; rap
Olfato - Essências da Amazônia
Paladar - Barras protéicas; complementos alimentares; bebidas
isotônicas, power drinks .
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