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Janeiro/2004
REVISTA ÉPOCA
Consumo
Fisgados
pelo cheiro
Lojas apostam nos sentidos dos clientes para vender mais. Além
da decoração e do som ambiente, agora a tática é atrair pelo olfato
Por Maíra Termero
Pouca gente se dá conta, mas o cheiro é uma das armas que os
comerciantes utilizam não apenas para atrair a clientela, mas para
faze-la consumir. Não se trata do irresistível cheirinho de pão quente
na padaria, que costuma ser infalível para abrir o apetite, mas de
criação de aromas específicos, capazes de fazer as pessoas comprarem
mais, em lojas, clínicas e até supermercados. A ordem é investir nos
cinco sentidos do cliente com visual atraente, música agradável, a
possibilidade de tocar e experimentar os produtos e, agora, de sentir
um perfume bom no ar. A preocupação é tamanha que até mesmo o famoso
cheiro de carro novo é rigorosamente controlado antes de chegar ao
nariz do consumidor - e já ganhou imitações sintéticas que lava -
rápidos e lojas de revenda espalham nos veículos. Na Volkswagen, quem
cuida do odor do zero - quilômetro é a química Maria de Lourdes Di
Franco, coordenadora do Centro Tecnológico de Emissão da fábrica de São
Bernardo do Campo. Antes de ser liberado para a venda, o veículo passa
pelo crivo rigoroso. "O cheiro tem que estar agradável, sem ser
tóxico", explica. Maria de Lourdes identifica cada um dos materiais
malcheirosos - tecidos, solventes, isoladores - e desenvolve maneiras
de diminuir seu odor no processamento ou, então, recomenda sua
substituição.
A clínica
estética Alliance vendeu 20% mais com os aromas
A
propaganda já descobriu o marketing olfativo há algum tempo. No Natal
de 2001, a Bauducco espalhou o aroma de panetone em 32 salas de cinema
de São Paulo, enquanto imagens do produto eram exibidos no telão, antes
do filme começar. Nos supermercados, a preocupação inicial era diminuir
o incômodo cheiro de peixe. Depois, passaram a colocar aromas, como os
de cravo e baunilha, que deixassem o cliente com fome durante as
compras. Essa estratégia se justifica porque o olfato é o terceiro
sentido que mais influencia as pessoas na hora de fazer uma compra,
depois da visão e da audição. Lugares escuros, barulhentos e
malcheirosos costumam afastar clientes, ao passo que lojas bem
decoradas e iluminadas, com som ambiente agradável e aroma relaxante,
seguram o consumidor por mais tempo, por prazer - e, portanto, propenso
a gastar mais. Para José Augusto Domingues, diretor da Sense
Envirosell, empresa especializada na avaliação do comportamento do
consumidor nos pontos - de - venda, essa atenção especial ao aroma é
mais um dos artifícios para vencer a crescente concorrência. "A
primeira onda de varejo foi informatizar os pontos - de - venda. A
segunda foi o crescimento das redes, que abriram suas filiais. A
terceira será melhorar a qualidade da experiência de compra, investir
no prazer de comprar", diz Domingues.
O SEGREDO
Na loja de roupas esportivas Bayard (à esq.), o aroma que motiva as
pessoas a comprar mais é o Enchanted Garden, liberado ao longo do dia
por um difusor (no detalhe)
EFEITO
Regina Cuzziol (acima) conseguiu aumentar sua clientela com aroma
relaxante na sala de espera. Maria de Lourdes (à esq.) controla o
cheiro de carro novo
A idéia é
convencer o cliente pelo nariz. Estudos da Sense Envirosellno Brasil
mostram que metade das compras sofre influência do ponto - de - venda,
ou seja, não é totalmente planejada e, portanto, pode ser definida de
acordo com o ambiente. Nos Estados Unidos, esse índice é de 80%. "O
americano é menos fiel às marcas que o brasileiro", explica Domingues.
A Biomist
produz aromas para 1.500 confecções em São Paulo
A clínica
estética Alliance usa um aroma especial em sua sala de espera há três
anos. "Eu queria um cheiro específico, que não fosse de produto de
limpeza", conta a proprietária Regina Cuzziol. No começo, as pessoas
relataram as mais variadas sensações: de lembranças de infância à
confiança no lugar. As vendas aumentaram 20% e o aroma foi citado por
todos os novos clientes na avaliação realizada pela clínica.muitos
chegavam a dormir na sala de espera. "Pedi um aroma que fizesse as
pessoas lembrar da clínica", diz Regina. Parece que funcionou. Uma
cliente deixou de comer o doce porque o cheiro da doceria era parecido
com o da clínica e a fez lembrar que precisava emagrecer. A combinação
responsável por esse sucesso é uma mistura de laranja, alecrim, limão,
cravo e canela, criada pela aromaterapeuta Sâmia Maluf. Ela já
desenvolveu 53 óleos essenciais para os negócios mais variados, entre
hotéis, pet shops e clínicas, e diz que os mais indicados para as
vendas são os aromas cítricos (laranja e palma - rosa), florais
(gerânio) e a lavanda, para relaxar. "A memória olfativa é uma boa
forma de fidelização dos clientes", ensina Sâmia.
A loja de
móveis Babylândia aderiu ao marketing olfativo há quatro meses.
"Queremos explorar nosso sentido mais fiel, o olfato, para nossa
empresa ser reconhecida pela fragrância", diz o responsável pelo
marketing da rede, Júlio Marques. O aroma BabyTalc, foi encomendado à
coreana Biomist, que está há três anos no país e tem 2 mil clientes na
Grande São Paulo, entre agências de viagens, academias, lanchonetes,
hotéis e até dentistas, que tenham cativar as crianças com cheiro de
doce no ar. Para cada negócio é desenvolvido um aroma diferente. A
responsável pelo marketing da empresa, Cristina Carnelós, ensina: "Para
moda adulta, é recomendável um perfume conhecido, como o Chanel. Para
moda jovem, um cítrico ou um floral".
Para a loja
de roupas esportivas Bayard, por exemplo, foi desenvolvido o Enchanted
Garden, implantado no começo do ano passado. Aloja também investe em
decoração e som ambiente para criar o clima esportivo característico da
rede. "É uma lavagem cerebral de pensamentos positivos", diz Regina, da
Alliance. Aparentemente os clientes não se preocupam ou nem percebem. A
maioria gosta e até comenta com os vendedores. Mas vale ficar atento a
casos de propaganda enganosa, como difusão de cheiro de couro em bolsa
sintética, de fruta madura em frutas verdes ou mesmo o cheiro de carro
novo no automóvel de segunda mão.
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