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Out/2007
REVISTA DOMINGO - JORNAL DO BRASIL
FARO DE CONSUMIDOR
Lojas apelam para o marketing olfativo e usam cheiros que
estimulam o cliente a comprar mais.
Clara Passi
Ao entrar na loja, tudo parece conspirar a favor da comprar:
temperatura, cores, texturas, som ambiente... Não dá para identificar o
que é, mas algo no ar atiça a sanha consumista. Este algo é um odor
milimetricamente elaborado por profissionais de marketing olfativo,
técnica de venda cujo objetivo é seduzir o nariz do cliente para que
gaste dinheiro. Quem mora no Rio, por exemplo, abre a carteira com mais
facilidade ao sentir cheiro de maresia ou qualquer outro que lembre
praia. Nadando na maré de conquistar o consumidor pelo faro estão a
grife de óculos Chilli Beans, a de moda masculina Vila Romana, a
butique Animale, a loja de calçados Via Uno, a de sportwear Perfit e a
Nike, todas apenas alguns exemplos de lojas cariocas que contrataram os
serviços da Biomist, primeira empresa de marketing olfativo do Brasil,
criada em 2002 e sediada em São Paulo, Rubens Valentim, responsável
pelo marketing, conta aquilo que o faro do ingênuo consumidor não
consegue detectar.
O que é marketing olfativo?
- É o marketing que usa o olfato como meio de comunicação. O objetivo é
criar associação entre marca e determinada fragrância que emocione o
consumidor e o torne fiel.
A pessoa nem se dá conta de que está sendo incentivada
a consumir
- Não. Lojas trabalham com visual planejado, que inclui roupas expostas
em araras para que os clientes possam tatear as peças, e com música
ambiente para acalmar quem vai comprar. Isso faz com que a pessoa passe
mais tempo ali, o que ajuda nas vendas. Aromatizamos ambientes grandes
por meio de um aparelho eletrônico acoplado ao ar-condicionado. Nos
menores, usamos pequenos aparelhos borrifadores.
Qual é o objetivo de criar atmosfera olfativa em uma
loja?
- É fazer o consumidor ficar o máximo de tempo dentro da loja sem que
ele perceba. Isso ajuda o vendedor a efetuar a venda com mais
tranqüilidade, enquanto o cliente fica seduzido pelo cheiro. A loja
deve ter clima calmo, que funcione como refúgio da confusão da rua ou
do shopping. Assim, suas ações serão mais lentas e as vendas
aumentarão. O marketing olfativo influencia indiretamente o consumo.
Que cheiro uma boutique deve ter?
- A tendência das lojas de roupas, como a Nike e a Vila Romana, é usar
os mesmos odores da perfumaria fina. Temos fragrâncias parecidas com o
perfume CK One, da Calvin Klein. Cada marca tem uma história, uma
filosofia. A Via Uno usa notas mais florais. A Animale não quis cheiro
exclusivo, preferiu usar uma das fragrâncias da nossa linha, a Morning
Of Spring, um odor herbal, com notas suaves de laranja. Temos de 40
tipos disponíveis.
O consumidor deve ser avisado de que existe um cheiro
que o faz comprar inconscientemente?
- Ele pode até saber, mas isso não vai mudar o fato de ele gostar ou
não da marca. Não estamos iludindo, mas sim, tornando a loja um local
para a pessoa relaxar e ficar à vontade para comprar. Saber ou não
sobre as ações de marketing olfativo não influencia a fidelidade à
marca. Uma grife contrata nossos serviços pensando no bem-estar do
cliente. Imagine se a loja deixasse um cheiro horrível no ar.
Como se constrói a identidade olfativa de uma marca?
- Com uma logomarca olfativa desenvolvida pelo mesmo processo que uma
logomarca visual, levando em conta a missão, os valores, os objetivos e
a história da marca, e o jeito como as lojas são decoradas. Um lugar
que use muita madeira na decoração deve ter logomarca olfativa com
notas amadeiradas, por exemplo. Reunimos as informações e as levamos ao
perfumista. Ele prepara três ensaios, e nós os submetemos à aprovação
do cliente.
Com que cheiros são possíveis ganhar o público carioca?
- O carioca usa muito notas ozônicas, que lembram o mar, as algas,
assim como notas herbais. Em nosso repertório temos fragrâncias
amadeiradas, florais, herbais, ozônicas e frutais. Os odores do
marketing olfativo não se fixam à pele ou à roupa, como acontece com
perfumes.
Que tipo de cheiro não é desejável em um
estabelecimento?
- De comida ou de café. Não combinam com grife de roupa. Qualquer odor
que não tenha a ver com o produto vendido não é desejável. Se a dona de
uma loja de surfwear, fã de perfumes Channel, perfumar a loja com esse
cheiro, vai afugentar o público-alvo. É preciso adequar o cheiro da
loja ao perfil do público-alvo, e não ao gosto pessoal do dono.
Como o cheiro influencia a vontade de comprar?
- O olfato está ligado ao sistema límbico do cérebro, local onde as
emoções são ativadas. O marketing olfativo tem apelo estritamente
emocional. Estudamos o cliente até descobrir que características são
capazes de atingir cada tipo de público. O logotipo da Chilli Beans é
uma pimenta, portanto, o logo olfativo tem um toque de pimenta, para
reforçar a jovialidade, a inovação e a ousadia pretendidas.
A Biomist consulta profissionais especializados para
orientar a empresa sobre as físicas provocadas pelos cheiros?
- Não. Pesquisamos m livros, estudos de doutorado e confiamos no
know-how adquiridos em sete anos de atividade. Usamos fragrâncias que
investem em reações emocionais, em vez de físicas, como as provocadas
pela aromaterapia. Mexemos com a memória afetiva das pessoas, com as
associações mentais que as fragrâncias provocam. Há cinemas que
aromatizam as salas com cheiro de pipoca, mas na verdade aquele é o
simples cheiro de manteiga que as pessoas associam diretamente ao da
pipoca. Todas as fragrâncias que criamos são registradas na Anvisa.
Nenhuma delas faz mal à saúde. Mas quem sofre de renite alérgica aguda
pode vir a incomodar-se ao entrar em uma loja aromatizada.
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